Mestra Irene Viana Pinheiro: guardiã da Festa da Ramada no quilombo Boa Vista do Rio Cuminã
O Prêmio Funarte Mestras e Mestres das Artes 2025, iniciativa do Programa Funarte Memória das Artes, reconhece trajetórias de agentes artísticos com notório saber, longa permanência e impacto coletivo nas artes visuais, circo, dança, música ou teatro. A ACASCEO, com missão de valorizar tradições quilombolas, ribeirinhas e locais por meio da arte, da cultura e do turismo sustentável, propõe a indicação da Mestra Irene Maria Viana Pinheiro, guardiã da Festa da Ramada no quilombo Boa Vista do Rio Cuminã, alinhando sua excelência na transmissão de saberes ancestrais à singularidade e relevância coletiva exigidas pelo edital. Sua trajetória exemplifica o compromisso da premiação com a memória viva da cultura amazônica, inspirando gerações e reduzindo assimetrias históricas no Norte do país.
Mestra Irene: trajetória e território
Nascida em 1961 na comunidade quilombola Boa Vista do Rio Cuminã, em Oriximiná, Irene Maria Viana Pinheiro construiu uma trajetória de mais de seis décadas dedicada à defesa dos direitos das mulheres negras, à valorização da memória afro-brasileira e à transmissão dos saberes ancestrais de seu território. Atuando como educadora popular e professora em escolas urbanas e quilombolas, ela criou pontes permanentes entre a escola, o barracão da festa e a vida comunitária, aproximando crianças e jovens das lendas, da culinária, da religiosidade e das narrativas dos mais velhos. Em um território quilombola titulado desde 1998, sua presença simboliza a continuidade de uma liderança que transforma memória em prática cotidiana, articulando cultura, educação e luta por direitos coletivos.
Guardiã da Festa da Ramada
No centro da atuação da Mestra Irene está a Festa da Ramada, celebração ancestral realizada em barracão de chão batido e coberto de palha, espaço sagrado onde a comunidade se reúne para cantar, dançar, compartilhar alimentos típicos e honrar pretos velhos e antepassados. A festa envolve rituais como a preparação coletiva de alimentos, o erguimento e a derrubada do mastro enfeitado com frutos, simbolizando fartura e compromisso com a continuidade da tradição quilombola. Como guardiã desse conjunto de saberes, Irene organiza e coordena as danças – valsa, bolero, desfeiteira, samba, xote e quadrilha – e orienta regras de conduta, protocolos de respeito e valores comunitários, garantindo a fidelidade aos códigos culturais e o envolvimento intergeracional de crianças, jovens e idosos.
Dança, educação popular e resistência
As coreografias conduzidas por Irene, além de outras mestras, não são tratadas como espetáculo isolado, mas como instrumentos de reafirmação identitária, enfrentamento ao racismo e fortalecimento dos vínculos comunitários. Em oficinas e processos formativos que integram danças, culinária, plantas medicinais, musicalidade e práticas coletivas, ela fomenta o protagonismo de jovens e lideranças culturais, criando redes de transmissão que ultrapassam o território do Boa Vista e alcançam outros espaços educativos e institucionais, como a UFOPA em Santarém. Sua metodologia, que articula educação popular, etnoeducação e cultura quilombola, exemplifica o que o edital Funarte define como trajetória com excelência técnica aliada à contribuição estruturante para redes criativas e produtivas das artes.
Redes, reconhecimento e o Prêmio Funarte
A trajetória de Irene é reconhecida por entidades como a Associação das Comunidades Remanescentes de Quilombos de Oriximiná (ARQMO), a Associação das Mulheres Trabalhadoras do Município de Oriximiná (AOMT-BAM) e a Comissão Pró-Índio de São Paulo, que a destacam como liderança na luta pela titulação territorial, empoderamento de mulheres quilombolas e transmissão de saberes ancestrais da Festa da Ramada, incluindo rituais, culinária e religiosidade. Essa rede de articulações comunitárias e institucionais, que inclui palestras e projetos na Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), amplifica sua relevância cultural como ponte entre gerações no território do Boa Vista do Rio Cuminã, preservando a memória viva quilombola em Oriximiná e região. Sua atuação contínua fortalece a identidade amazônica, tornando-a um patrimônio essencial para a continuidade das tradições ancestrais no contexto brasileiro.
ACASCEO e a preservação da cultura quilombola
A ACASCEO, associação cultural, artística e social de Oriximiná formalizada em 2025, propõe a Mestra Irene Maria Viana Pinheiro ao Prêmio Funarte Mestras e Mestres das Artes 2025 como forma de projetar os saberes ancestrais do quilombo Boa Vista do Rio Cuminã para além do Oeste do Pará, revelando ao Brasil a riqueza cultural de Oriximiná. Projetos como o intercâmbio na Festa da Ramada, em abril de 2025, onde a Cia de Dança Êxtase imergiu em ritos ancestrais e inspirações para o Projeto Junino “Ramada: Tradição Quilombola de Fé e Festa”, exemplificam o papel da entidade em conectar o barracão quilombola aos palcos nacionais, fortalecendo redes intergeracionais e ampliando a visibilidade de tradições como a culinária ritual, a religiosidade e as práticas coletivas do Cuminã. Assim, a associação assegura que a memória viva de Oriximiná transcenda fronteiras locais, consolidando esses saberes como patrimônio nacional essencial para a diversidade cultural brasileira.